PROSPETIVA
Naquela infância, eu era um enigma para os outros e um labirinto para mim mesmo. Habitava um não-lugar, onde o pensamento corria mais depressa que o tempo e a emoção queimava num silêncio intenso, uma fogueira interna que ninguém via. Viver era um exercício exaustivo de tradução: adaptar-me ao mundo, moldar-me aos outros, enquanto buscava nos meus pares um reflexo que nunca chegava.Tornei-me um sentinela de padrões e significados. Analisar cada gesto e decifrar cada ambiente não era apenas um escudo, era (e é) um hiperfoco, a minha forma de ler o invisível.O alívio só chegou depois de um inverno rigoroso da alma, um quase fim das forças sociais e existenciais. Com a clareza, veio o luto. Chorei a criança que brilhou sem ser vista, aquela que se encolheu para conseguir caber em espaços pequenos demais. Chorei o jovem que precisou de vestir a pele de ancião para ser levado a sério, pagando com a sua leveza o preço do reconhecimento.A vida tornou-se, então, uma arquitetura de constante reconstrução. Carregamos as marcas das críticas e o eco de vivências que não adormecem, criando muros que nos protegem até de quem nos quer bem. É um aprendizado lento: entender a nossa própria regulação, medir o peso da partilha e o custo do convívio. Hoje, sei que a alegria de uma noite celebrada será paga com o silêncio necessário de um dia de resguardo, onde o corpo e a alma pedem tréguas sensoriais.Agora, o controlo cede lugar à presença. O fardo de tentar prever o futuro transforma-se no propósito de guiar quem vem depois, oferecendo a mão que outrora me amparou. A aceitação floresce, resgatando sonhos que o tempo julgou perdidos. A coragem, que estava estagnada, levanta-se como um facho de luz, e a inquietude, aquela velha companheira, deixa de ser sombra para se tornar o vento que impulsiona os meus passos.

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