AS DUAS MARGENS DO MESMO RIO


Fomos, um dia, sementes em solos distintos,

Um cresceu no amparo, o outro entre labirintos.

Tu trouxeste na bagagem o peso de quem espera,

Eu trouxe na pele as marcas de uma longa espera.


Somos espelhos de imagens trocadas:

Tu, o passo firme em estradas já traçadas,

Eu, o camaleão que em cores se perdia,

Moldando o próprio rosto na luz que o outro trazia.


Houve em mim o estrondo, a explosão e o receio,

O medo de errar e o grito preso no meio.

Houve em ti a calma de quem nasce com o prumo,

Sabendo de cor o destino e o resumo.


Mas o tempo, esse mestre de mãos invisíveis,

Tornou os nossos passos, enfim, compatíveis.

Eu limpei o ruído, ergui a minha muralha,

Transformei em escudo o que antes era falha.


Hoje somos dois centros, dois eixos, duas frentes,

Racionais no agir, no olhar conscientes.

Tu, a estrutura que a paz soube erguer,

Eu, a fortaleza que a luta fez nascer.


Não importa a origem, o trauma ou a sorte,

Encontramo-nos agora no mesmo norte:

Seletivos no afeto, discretos no plano,

Vencendo, em silêncio, todo o abismo humano.


R.A.O

21/12/2025

(Dedicado a um amigo) 

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