CONTINUIDADE TEMPORAL VS LINHA DO TEMPO
(12 anos separam estas fotografias)
Procuro não olhar para trás.
Quero crer que o menino tímido, inseguro e introvertido de outrora colmatou as fragilidades, não se desligando delas.
Era o que era e sou o que sou...
Hoje, enfrento a "dor de pensar", comum à maioria de nós, tal e qual Alberto Caeiro, privilegiando as sensações, procurando estar atento à "eterna novidade do mundo".
Tento que a contenção estoicista de Ricardo Reis me acompanhe, sem aderir totalmente à sua inspiração epicurista, triste na realidade. O prazer, esse, moderado, a conduta ordenada.
A inquietação acompanha-me, na realidade, mas a alma de poeta, cristão e não meramente pagão, é inquieta, não é verdade?
A real questão está numa certa angústia, contrária à ataraxia e ausência de perturbação. Sim, um constante diálogo entre o passado e o presente que insiste em permanecer.
Vem-me à memória a criança interior, o adolescente, o jovem adulto que não se adaptou. Da minha infância, não existe, ao contrário de Pessoa ortónimo, qualquer nostalgia, a não ser a consciência coletiva, os animais, os aromas e os sabores de outrora, que jamais se reavivam, jamais se reavivarão!
Tenho pelo meu "eu do passado", hoje, mais do que nunca, olhando o que me tornei, um olhar crítico, jamais saudosista, pelo contrário. É verdade que foi o que conseguiu ser, com base naquilo que também lhe foi dado.
Dentro de mim, ele vive, ansioso, no meu inconsciente, por ser novamente acolhido, libertado das amarras que sofreu de si próprio e dos demais.
O modo como procurei contornar o seu grito foi, em parte, dedicando-me aos outros por inteiro. Fui e sou feliz nesse propósito. Preciso, no entanto, com a força e resiliência no presente adquirida, dedicar-me também ao ser ferido que deixei para trás e cura-lo dos dramas e fenómenos extraordinários que viveu. Fazer as pazes com a criança, o adolescente, o jovem adulto, aceita-lo, escutar a sua voz interior, para o adulto puder continuar a seguir em frente, sem fados, abrir a mente e o coração, conquistar novos oceanos. Perder de vista a terra.
Afinal, somos o céu, os pensamentos, os sentimentos, o que fomos, na realidade não os somos. Estes são os rios, os mares, os lagos que observamos e vamos deixando para trás!
Quero crer, portanto, para buscar um sentido, que o tempo é uma continuidade, complexa e multifacetada, não uma linha reta!
R.A.O
26/11/2025
emlinhacomosentir.blogspot.pt


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