Para mim... As JMJ
(Artigo escrito no âmbito do movimento dos cursilhos de cristandade)
Masaharu Taniguchi foi um líder religioso japonês que fundou um movimento em crescimento até hoje denominado “Casa do crescimento”. A instituição religiosa carateriza-se pelo não-sectarismo, pelo estímulo ao aperfeiçoamento e pelo cuidado ambiental.
Por causa do seu profundo amor e compaixão pela humanidade, ele sofria com as várias contradições deste mundo, onde os fracos se tornam vítimas dos fortes. A fim de descobrir a exata origem de tais distorções e realidades, estudou diversas filosofias e religiões, tanto antigas como novas, chegando a uma brilhante conclusão: “A matéria é nada. O corpo físico é nada. Todos os fenómenos, no mundo da matéria, são nada. O que existe verdadeira e eternamente é Deus e Sua manifestação. O homem é, na realidade, um filho de Deus. Ele não é matéria, mas existência espiritual. O Homem já é um ser perfeito. Tudo no nosso ambiente é simplesmente o reflexo da nossa própria mente".
Apesar de ter vivido num tempo incrivelmente diferente do nosso (Faleceu em 1985 aos 91 anos), num país em que apenas cerca de 1% da população é católica, não sendo o seu caso, Taniguchi, na sua longa vida, exposta a muita crítica derivada da sua doutrina fundadora, o seu espírito na sua base não se distanciava daquilo que foi a minha vivência de 3 dias e das próprias Jornadas Mundiais da Juventude 2023, juventude essa que é um tempo de inquietações, julgando eu nos meus 28 anos ter ultrapassado aquelas de cariz mais identitário e verificando hoje estar enganado num passado não muito longínquo. Somos sempre vítimas da nossa positividade exacerbada!
As JMJ confirmaram-me aquilo que eu suspeitava já há muito tempo: A juventude não é um tempo, mas um estado de alma e a TODOS sua santidade, o Papa Francisco disse: "Estar insatisfeito é um bom antídoto contra o narcisismo".
Quantos narcisistas não deveriam estar por entre cerca de 1.500.000 pessoas, tendo sido as JMJ um bom antídoto contra esta patologia que afeta cerce de 1% da população mundial? Tendo as JMJ jovens dos 14 até (pelo menos) aos 92 anos, todos nós, que carregamos um pouco de narcisismo encontramos nas palavras do Papa a importância da insatisfação, da inquietação como instrumento com vista à nossa ação apostólica.
Em Fátima, Francisco disse: "A Igreja não tem portas, para que todos possam entrar", incluindo os elementos deste mundo vindo das periferias, não só geográficas, mas espirituais, enfim TODOS, independentemente das suas raízes, estado civil ou orientação sexual, não me atrevendo eu a entrar no domínio dos rituais ou dos sacramentos que deixo para aqueles com maior formação teológica e clerical.
Relembro que sou apenas alguém a quem foi pedido que relatasse num simples texto a minha experiência nas jornadas mundiais da juventude, com alguma formação e experiência na vida paroquial e da igreja, com alguma (pouca) experiência de vida, que andava desiludido e com o ideal um pouco adormecido, que as Jornadas Mundiais da Juventude reavivaram, agora com outra maturidade.
Após esta vivência espiritual, resumida nestas simples frases que me tocaram, passo agora à humanidade das jornadas. Humildemente, posso dizer que não vivi as mesmas tão intensamente, com todas as dificuldades inerentes e que nos permitem no final o sentimento de realização, fruto das pedras que vamos encontrando pelo caminho. Não fui na sua plenitude um peregrino como Cristo e a maioria dos que lá passaram: Tive a oportunidade de experimentar sempre algum conforto, longe das grandes multidões, com assentos à nossa disposição, não muito longe do centro das jornadas, com transporte à entrada do alojamento e à saída dos dois recintos onde estive, sem grande necessidade de “picar o ponto” e ser revistado. (Só quando ia com mais alguns elementos em plena noite de Sábado buscar os paramentos do Padre Domingos para a celebração e tivemos de voltar para trás devido a uma fila de cerca de dez mil padres que nos poderia tirar uma noite de sono se lá continuássemos) . E sim, dormi em camas que um dos mesmos dispunha. Não fiz bolhas nos pés e a comida nunca me faltou, tão pouco tive pedras ou raízes de plantas a fragilizarem ainda mais a minha já deficiente coluna.
Desculpem, “especial”… Porque especiais foram e são muitas das pessoas que me acompanharam e, quando olhávamos para os cerca de 400 elementos presentes na zona da mobilidade, felizes, pois nunca pensaram viver aquela experiencia (divertida e emotiva), apercebemo-nos da nossa pequenez e o quanto os valores e os ideais estão sempre dependentes dos nossos critérios. Se o meu critério para ser feliz é ter dinheiro para ter uma viagem para a Austrália, então apercebo-me naquele momento que sou uma pessoa profundamente infeliz. Verifico o tamanho da minha felicidade quando, desprovido de muito do meu conforto de casa, refém de temperaturas altíssimas, contribuo para a felicidade daqueles que matematicamente não estarão tanto tempo connosco ou teoricamente só vieram a este mundo, presos a um ideal de sobrevivência.
Consagremo-nos deste modo ao espírito das Jornadas Mundiais da Juventude 2023 e às palavras do Papa Francisco num verdadeiro espírito de inclusão e superação e não só de fotografia.
A igreja é sim de TODOS e para TODOS. Todos somos iguais. Não existe, no entanto, igualdade só pela igualdade. Há momentos, como este, que igualdade significa ao maior dos intelectuais dormir por cima da raiz de uma árvore e andar quilómetros, enquanto os mais fragilizados andam sob quatro rodas e dormem no maior dos confortos (não foi o caso).
Em jeito de conclusão, a alegria das JMJ “não se trata de levar uma alegria passageira, uma alegria momentânea, mas uma alegria que cria raízes.” A primeira exposta nas redes sociais, recheada de “fofuras”, a segunda a realidade dura da vida. É nestes momentos que aprendemos, até pela ausência de comida aquecida, uma cama, diversidade de vestuário à nossa disposição, um carro para nos deslocarmos, ar condicionado, entre outros prazeres, que a verdadeira alegria, a verdadeira felicidade está nos problemas e sua resolução, nas lutas, no modo como as enfrentamos, incluindo os obstáculos.
Os prazeres não são a causa, mas a consequência de algum sofrimento necessário, na doação da nossa vida pelo outro, que Cristo nos pede, que Taniguchi nos seus ideais compreendeu e que não é pedido para levar ao limite!
E a vida, essa, continua, tal como a cultura de missão, alicerçada numa autêntica cultura de silêncio…
R.A.O
19/09/2023

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