POEMA DA PAZ - O outro lado

 


Era uma vez num certo lugar

Um menino que não há igual

Com o seu carrinho brincava

No seu pequeno mundo entrava


Na outra margem do lago

Aviões, navios e tanques estavam

Os povos se atacavam

Tantos sonhos acabavam


O menino para lá não via

O seu espírito de criança vagueava

Para lá das águas ele imaginava

Um mundo belo ele sentia


Diplomatas algures se reuniam

A paz negociavam

As hostilidades se acalmavam

Mas o inferno persistia


O menino crescia e matérias estudava

História, Matemática, Geografia

O mundo com outros olhos via

O medo agora existia


O conflito no outro lado insistia em se manter

O jovem o outro lado ainda imaginava

Os olhos não conseguiam ver

Mas o coração esse palpitava


Longe o jovem da guerra se mantinha

O medo do lago atravessar era imenso

Nele havia um sofrimento intenso

Tão grande quantos anos ele tinha


O jovem adulto se tornou

Um Homem grande se fez

O mundo queria mudar

Ao outro lado viajar


Eis que de armas e barões ele partiu

Ao outro lado ele foi

Sua mãe esperança nutriu

Que da guerra ele voltasse


A senhora o outro lado olhou

Lembrou o menino que naquele brincava

O adolescente sonhador

O Homem de hoje carregado de amor


Por amor foi, por amor voltou

Sua geração quis acompanhar

Entre tantos inimigos que mirou

Foi sobretudo com a guerra que quis acabar


O homem se formou

O mundo ele alcançou

Daquele lado saiu

Nem um ou outro lado tão cedo o viu


Para Nova Iorque partiu

ONU ali estava ele

Uma nova batalha erguer

Acabar com a guerra… Volver!


O menino de um dia no seu interior continuava

O jovem também

As ruas percorria a pé

Aquele homem de fé


À igreja chegava

A Jesus oferecia a sua prece

Acabar queria com o mal

A paz era o seu ideal


Um ideal de amor ele construía

Sua mãe ele ama e amou

Uma “copina” por ele se apaixonou

Com Julieta o Romeu se casou


Tanto tempo se passou

O homem persistia

À sua terra viajou

O outro lado contemplou


Algum trabalho ele deixou

Sua família visitava

Que alegria lhe dava

Um bebé sua esposa esperava


Nova Iorque ali está ele

Um filho Deus lhe deu

Dois, três, quatro

Ao mundo belos frutos ele ofereceu


Resolução após resolução

Prece atrás de prece

Ação seguida de ação

Quem dera que ao mundo a paz desse


O outro lado continuava fundo

A água calma como outrora

O menino é que lá não estava

Cresceu sem demora


O conflito não se dissipava

Cinquenta anos ele fizera

A esperança renovava

Avô o senhor já era


O menino a um passado distante pertencia

O jovem foi na corrente

O homem atrás ficava

O Senhor a paz não conseguia


As forças inimigas não ganhavam

Tantas mortes o outro lado viu

Pouco ou nada sobrou

Só um povo o sonho reclamou


O Senhor pela reforma não ansiava

Setenta anos às costas carregava

Ao outro lado regressou

Cinquenta anos depois retornou


A sua vida mudara

Mas o outro lado não

Ali o mundo seguia triste

Mas o senhor prometeu o pão


Os inimigos reuniu

Em Nova Iorque uma resolução aprovou

A um acordo chegaram

Parece que a paz finalmente chegou


O texto era simples:

“O meu inimigo devo amar

Por palavras dialogar

Com as armas da paz sempre lutar”


Oitenta anos ele já tinha

Quando da esposa para sempre se despediu

À igreja de outrora voltou e nela rezou

Os filhos abraçou


Eis que à sua terra chegou

O velho que na fotografia foi menino

Que beleza tinha a sua mãe amada

À casa de família para sempre regressou


O outro lado agora contemplava

Uma pomba branca no céu visualizou

Um trevo o seu bico transportava

Até lá a pomba voou


Os aviões, os barcos e os tanques

À paz deram lugar

Pessoas a caminhar junto àquele lago de verdade

A sentir o cheiro e o sabor a liberdade


O vento, o velho sentia

Sentado a pescar

Os olhos ele fechou

O mundo ele amou


O seu ideal honrou

A paz ele alcançou

Por isso é de salutar

A paz de Cristo honrar


O velho homem ainda menino ao coração foi buscar

A esperança e o amor

O adolescente inteligência ganhou

O homem na coragem triunfou


Depois foi a vez do Senhor perseverar

E assim de todos arrancar o perdão

À paz sempre convidar

Oferecer bem estar, pão e educação


Convidou todos a dar as mãos

Na generosidade viver

Entre tanta solidariedade

Amar o inimigo é o maior ato de caridade


Maior ato de caridade e verdadeira paz

A única que se pode manter

A melhor para se oferecer

E que o velho continua a se debater


Aos noventa anos chegou

No seu lado ele está

O outro lado contempla mas não vê

É a silenciosa paz de Javé


R.A.O

2019

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