O pássaro Frederico

 


O ano era 1941...

O mundo estava em guerra.

Londres não era exceção. Decorria o "Blitz", noites constantes de bombardeamentos alemães na cidade. Imensa dor e sofrimento caracterizavam aqueles dias. Em cada morte, o coração de Mary chorava lágrimas de sangue, sempre e cada vez mais! 

Era hora de partir para um lugar mais recôndito, menos exposto aos desejos expansionistas de Hitler. 

Não era intenção de Mary abandonar os seus conterrâneos, mas uma senhora viúva de 60 anos, estava muito desprotegida. Talvez estivesse melhor em casa de uma prima, numa aldeia a sudoeste de Inglaterra. 

Custou a lá chegar. Em tempo de guerra, os meios de transporte e vias de comunicação eram mais escassos e as interrupções frequentes. Na linha dos caminhos de ferro não era exceção. 

Quando chegou à aldeia, o verde dos campos revestiram-lhe de esperança que o "amanhã" seria melhor. O silêncio do céu, a sensação que habitava agora em um mundo diferente, o cantar dos pássaros, um sinal que a paz iria chegar. 

E chegou! Pelo menos para Mary. Estava a fazer a sua caminhada matinal, quando algo simples, mas extraordinário, aconteceu. Naquela manhã solarenga, longe do barulho das sirenes de alerta, algo a sinalizou, num tom mais suave e sereno. Um passarinho havia caído no ninho. Estava em muito mau estado. O seu piar foi o esgotamento das forças que lhe restavam para se manter ligado à vida. 

A sua sorte é que Mary não era de desistir. Alimentou-o com uma maravilhosa papa, aquecendo-o numa gaiola improvisada com uma lâmpada e um cobertor confortável por baixo do seu frágil corpo. Deu-lhe o nome de Frederico, em homenagem ao filho que a guerra lhe havia levado. 

O destino de Frederico era incerto, como de tantas pessoas, particularmente jovens rapazes, que não haviam escolhido terrível empreendimento. Não obstante, a "ração de combate" havia de fazer efeito. 

Já Mary não se lembrava de se dedicar a ninguém tão afincadamente desde que o seu menino era apenas uma criança. Tão pouco se lembrava da importância do verbo com todos os acontecimentos que assolavam o mundo, fora as distrações e egoísmos normais em tempos ordinários. 

Tinha ouvido dizer que o "Blitz" chegara ao fim, talvez em breve regressasse a Londres. Contudo, até lá tinha de continuar a cuidar de Frederico.

Os dias foram passando. Frederico recuperava. Os meses. Frederico foi crescendo saudavelmente. Desenvolvera com Mary uma relação de amor e proteção. Com frequência, estava fora da gaiola, pousado no ombro da sua amiga. 

Mary sabia, no entanto, que a natureza de Frederico era ser livre. Brevemente, teria de lhe fechar a porta de sua casa, deixando a gaiola no exterior com o portal da liberdade e do futuro aberto. 

Depois de meses a proteger o seu amado animal, sabia que agora teria de o deixar expor-se aos perigos do mundo, como fez com o Frederico original, o seu amado filho, cuja morte foi declarada e o corpo nunca aparecera. 

"Meu pássaro Frederico, a capacidade de dizer adeus é também um ato de amor. Se fosses uma pessoa com asas diria para voares e fazeres acordar o sentimento à humanidade, para partires rumo a uma jornada em que apelasses ao caráter com o belo canto que adquiriste."

Com estas palavras, Mary despediu-se do seu amigo. Ou pensava ela. Durante dias e dias ainda esteve lá. Mesmo depois de lhe deixar de dar comida e água, Frederico ia aguentando sem adoecer. 

Era o outono de 1941 e Frederico havia desaparecido. Mary receava o remorso. Ainda mal sabia voar. Com certeza algum animal o tinha apanhado. Assim pensou ela até à Primavera de 1942. Tomava o pequeno almoço e um pássaro cinzento pousou na janela, num pio que lhe era familiar. Abriu-lhe a porta e a ave desatou a voar, feliz, na cozinha!

"Volto a ser bombardeada pelo teu belo e afinado canto, Frederico! Sê bem vindo!"

Mary compreendia agora que a sua perseverança havia resultado. Ter permitido a Frederico voar foi o melhor que podia fazer por ele. Ele agora podia vir ter com ela quando quisesse. E assim foi em cada primavera e em cada verão até Agosto de 1945. 

A guerra havia terminado. Frederico estava velho. A sua espécie não tinha uma esperança média de vida elevada. Mary, que relutava a regressar a Londres, de modo a estar na aldeia quando Frederico voltasse, sabia que era hora de o deixar partir para o seu último voo.

Naquele dia, ia às compras, sabia que quando voltasse, Frederico já não estaria no parapeito da janela. Deu-lhe um último beijo, enquanto ele se encostava, como era seu habito desde novo, à sua bochecha, buscando proteção, como tinha sido ao longo da sua vida. 

"Acho que a missão que te incumbi há muito tempo resultou, Fred! Talvez possas agora descansar em paz! Só te peço uma última coisa. Envia-me um sinal do meu filho Frederick e pousa no seu ombro por mim!" 

Frederico partiria como todos os anos, mas Mary sabia que, desta vez, dificilmente voltaria. 

Aguardou-o até à Primavera de 1946. Entre os dias que deveria voltar, esperou-o desde o fundo do horizonte. Talvez agora, que o mundo estava relativamente em paz e a sociedade lentamente a regenerar-se e a reorganizar-se após a guerra, fosse o momento certo para regressar a Londres. 

Mary saía de casa, após se despedir da sua velha prima, agradecendo-lhe 5 longos anos de acolhimento. Quando iniciava a sua caminhada rumo a casa, um jovem de uniforme surgiu e acenou-lhe! 

Era como se Frederico voltasse com novas asas, agora sob outra forma. Como se fosse, de fato, uma pessoa com asas. Não conseguia pousar todo o corpo no ombro da velha senhora, mas pousava nele a cabeça com todo o amor que lhe tinha! 

"Voltaste meu querido filho, afinal não morreste! Sempre tive esperança e, quando ela acabou por findar, estás novamente aqui!"

Frederick tinha sido preso capturado, gravemente ferido e preso num campo de concentração nazi, sujeito a trabalhos forçados, e não conseguiu dar notícias. Após um longo tempo sem aparecer, o exercito decidiu dar-lhe como morto. Regressara a casa em Londres, mas a mãe não estava. Conhecendo o seu paradeiro, foi até lá. Estavam quase desencontrados, mas duas almas não se desencontram quando estão ligadas. 

"Obrigado Frederico!" - Dizia Mary, enquanto contemplava o céu. 

Após a sua morte, em 1979, aos 100 anos, o seu filho Fredrick trouxe ao mundo a história da sua mãe e do amigo que ela acudiu. Ou terá sido o contrário? Será que Frederico verdadeiramente caiu do ninho ou a ele regressara debilitado? Seria, na verdade, um fragmento da alma restante? De alguém que durante aqueles anos esteve destruído e foi-se recuperando na esperança de voltar a abraçar fisicamente a sua mãe? Quando estivesse curado, o seu corpo em movimento regressaria, finalmente, a casa?

Muito poderíamos dizer de Frederico, a maioria pura especulação, mas uma coisa é certa: Frederico não era um pássaro qualquer! 


Rui Alexandre Oliveira 

29/07/2025

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