Samilla - Uma história de perdão e superação
Samilla manuseava o seu álbum de fotografias.
Os anos eram os anos 70...
Tinha uma decisão importante a tomar e o tempo urgia!
Uma escolha a fazer entre a mágoa e o perdão... Continuar a sua história, com um ciclo do passado por fechar ou tranca-lo definitivamente!
Samilla fechou o álbum. Depois, pegou no telefone.
- Preciso de uma passagem, para já, só de ida, para a Venezuela... Sim, só de ida!
O lugar onde já não ia há mais de 50 anos. Sim, 50 anos! O lugar antagónico, onde foi muito feliz, mas onde viveu também os piores momentos da sua vida...
Os anos eram os anos 70...
Em Caracas, vivia a jovem Samilla, bela, inocente e sonhadora. Órfã desde muito cedo, trabalhava numa mercearia. Foi lá onde conheceu Pablo, rapaz de boas famílias, tal como a sua, proveniente da emigração, muito comum naquele tempo entre portugueses.
"Pablito" e Samilla já haviam nascido lá. O seu amor foi, inicialmente, extraordinário, idílico. "Pablito" era tudo que Samilla sonhara e Samilla era tudo para Pablo.
Ninguém da família de Pablo compreendia o tamanho e dimensão daquele amor. Rosana, mãe de "Pablito" não queria o filho casado com uma jovem pobre. Desejava para o seu filho alguém mais de acordo com os seus estatutos, que ele fizesse o mesmo que as suas duas filhas, ambas casadas com homens "maiores", segundo ela nas posses, na elegância e no caráter.
Pablo resistiu. Tinha uma paixão fervorosa e ardente por Samilla, um amor estranho, mas presente.
A cerimónia de casamento foi pequena. Pequenos foram também os gestos por parte da família de Pablo, na sua presença contrariada.
Samilla estava feliz... Perante tudo o que lhe esperava e resistências familiares, "Pablito" tinha dúvidas se tinha feito a coisa certa. Aquele sorriso forçado após a troca de alianças, contrastante com a pura e genuína felicidade de Samilla foi um presságio para o que viria acontecer.
A noite de núpcias foi ardente para Pablo, mas fria para Samilla. Sentira-se um mero objeto, apesar de saber que não era intenção de Pablo magoa-la. Contudo, apesar da paixão sentida, "Pablito" já não lhe dava afeto, como antigamente.
Por trás daquele "gostaste?" do rapaz e do "sim" tímido de Samilla, houve uma concepção. Nove meses depois eram pais de Juan.
Juan, que crescera apaparicado pela avó Rosana, que parecia competir com a nora pelo amor do seu neto. Isto, enquanto Samilla cuidava da casa e garantia conforto a seu marido, sogra e cunhados.
Tinha sido obrigada a deixar a mercearia por Rosana, agora dava sem receber. Uma sogra prepotente, um marido cada vez mais distante e um filho que cada vez mais transferia toda a sua atenção plena para a avó.
Samilla estava casada há 7 anos. Naquele dia, tinha ido ao mercado. Enquanto andava pela rua, viu um casal no seu lado direito. Os beijos eram intensos. Finalmente, conheceu o elemento masculino, deixando cair as compras e correndo sem destino.
Pablo reparou que Samilla viu tudo, indo atrás dela. Samilla não podia dar com a língua dos dentes ou a sua mãe o deserdava.
Entretanto, Samilla desesperava. Estava com cada vez menos fôlego. Foi aí que um homem a agarrou antes que desmaiasse e lhe convidou a dirigirem-se ao estabelecimento mais próximo em busca de uma bebida que a acalmasse.
Samilla desabafava assim a sua situação com Gabriel, também ele português sob o olhar disfarçado de Pablo.
Os encontros entre Samilla e o seu amigo Gabriel naquele lugar tornaram-se cada vez mais frequentes ao longo de semanas. Em casa, tinha de lidar com um marido cada vez mais distante e uma sogra desconfiada das suas saídas, ansiosa que Samilla desse um passo em falso!
Um dia, após sair para fazer as compras habituais para a casa, toda a família a esperava naquela hora de almoço, na sala.
Rosana tinha um envelope que mostrou à nora. Nele constavam fotografias desta com Gabriel. "Pablito", receoso que Samilla contasse à sua mãe o seu caso, numa manobra de dissuasão ou meramente de distração, contratou um detetive de modo a recolher imagens de Samilla e Gabriel. O que não esperava seria a decisão que sua mãe, Rosana tomaria.
- As tuas roupas estão em sacas, lá fora, podes deixar imediatamente a minha casa. Nela não são permitidas vagabundas! - Exclamou.
Por muito que Samilla tentasse se justificar, ninguém da família a deixava falar.
- Mãe, podemos resolver isto de outra maneira! - Exclamou Pablo.
Samilla olhava para "Pablito", sem ódio, mas com os seus olhos mergulhados na mágoa e no ressentimento, percebendo tudo o que acontecera, mas sem o denunciar.
- E o meu filho?
- Fica com o pai, é claro! Está lá em cima no quarto. Apesar de tudo, poupo-te à vergonha de te humilhares em frente ao teu filho.
- E para onde vou?
- Desenrasca-te! A partir de agora deixas de ser problema meu! Serás apenas convocada para apareceres no escritório de advogados. Não ouses pedir nada nem a custódia do teu filho. Sabes o que somos capazes de fazer!
Sem resistências, Samilla partiu. A meio da calçada, um homem chamou-a. Visivelmente consternado e a chorar, "Pablito" aproximou-se!
- Samilla, eu já não posso fazer nada...
- Que tal dizeres a verdade? - Interrompeu Samilla.
- Tu sabes o que a minha mãe e as minhas irmãs me fariam. E os meus cunhados...
- Cobarde!
- Tens o direito de me chamares o que quiseres. Tens aqui este dinheiro, é suficiente para comprares uma passagem para Portugal, recomeçares longe daqui, deste lugar e destas pessoas! A tua tia estará com certeza à tua espera!
- Cuidas do Juan?
Pablo chorava...
- Tentarei! Sabes que nem de mim consigo cuidar...
Passaram-se 50 anos...
Antes de decidir desdobrar o álbum e marcar viagem, Samilla recebera uma chamada internacional, não sabe como Séfora, irmã de "Pablito" conseguira o seu número.
- Por favor, tens de vir, não lhe resta muito tempo. Ela quer muito falar contigo! Acho que está apenas à tua espera!
Os restantes passos já conhecemos.
Entretanto, Caracas era muito diferente da época em que Samilla havia partido. Contudo, a essência e os lugares eram os mesmos. Descobrira naquele momento que, apesar de tudo sempre tinha tido saudades.
Como estaria "Juan"? E "Pablito"? O que tinha sido feito do seu amigo, Gabriel, de quem nunca se tinha despedido?
Séfora dissera-lhe que alguém a esperaria no aeroporto!
Seria o seu filho, "Juan"? Provavelmente já teria filhos, talvez até netos...
Eis então que um homem alto lhe acenou, conservava em si a postura e aquele bigode por quem poderia se ter apaixonado. Estava muito mais velho, mas o sorriso, ai o sorriso...
- Olá, Samilla!
- Olá, Gabriel!
- Foram elas que te pediram para me vir buscar? Insistem em confrontar-me com o passado? Ainda não desistiram de me humilhar?
- Tu já vais perceber tudo!
Gabriel levou- a até à velha casa, a casa onde agora tinha autorização para entrar. Esperava-os Séfora.
- Olá, Samilla! É normal se não me quiseres cumprimentar.
- Na verdade, eu só quero perceber o que se passa, senti que devia vir, mas depois de teres mandado o Gabriel buscar-me!
- Não fui eu! Segue-me!
Samilla estava estupefacta. O estado da casa indicava que a família de Pablo, outrora uma das mais ricas de Caracas, indicava que aquela família rica de Caracas não tinha sido poupada à crise política, económica e social, acompanhando toda a situação da Venezuela.
- O quarto dela é aqui, mas isso tu sabes! Peço-te só que fales devagar com ela e não permitas que se canse muito. Se necessário, ela tem sempre água com ela. Tem lá um copo para ti também.
- Obrigada!
Samilla entrou. Pensara sempre, tendo em conta o tempo, que Rosana já havia partido. A ironia de uma longa vida foi Rosana ter perdido a filha mais velha, os seus dois genros e toda a sua fortuna. O seu aspeto frágil contrastava com a altivez de outros tempos. Contudo, as rugas não lhe permitiram perder a beleza. Pelo contrário, a par de um olhar mais doce e algum apaziguamento, Rosana revestia-se agora de uma certa candura.
- Olá, Samilla!
- Olá, Rosana!
- Obrigada por teres vindo!
- De nada.
- Tudo o que eu te possa dizer hoje, não apagará o passado, tão pouco terei a ousadia de te pedir perdão...
- Já está perdoada há muito tempo! - Interrompeu Samilla.
- Eu não me teria perdoado! Estás casada?
- Nunca quis, não depois do que vivi aqui.
- Então, não tens filhos?
- Não, sentir-me-ia sempre culpada por dar a outros filhos o amor que não pude dar ao Juan.
- Porque não te foi permitido e a culpa é toda minha!
- Deixe lá, se queria o meu perdão, já sabe que o tem há muito tempo.
- O Pablo contou-me há alguns anos tudo o que se tinha passado. Na verdade, eu já sabia, sempre soube, mas...
- Foi a oportunidade que teve de se livrar da sua nora pobre.
- Na realidade não era a pobreza que me afligia em ti e sim a tua beleza...
- Você sempre foi uma mulher muito bonita!
- Refiro-me à beleza genuína, àquela que provém também do coração! E essa, sempre a tiveste! Eu não posso mudar o que fiz, mas posso remendar...
- Não precisa de se preocupar com isso!
- Há muitos anos coloquei algum do meu dinheiro em paraísos fiscais no Panamá, que com toda esta crise fiquei impedida de mexer. Tive, como podes imaginar, de mexer uns cordelinhos e alguém poderá agora usá-los.
- Tem os seus filhos...
- A Séfora não te contou, pois não?
- O quê?
- O Pablito morreu há 3 anos. Cancro. Tentamos de tudo, o pouco dinheiro que tínhamos aqui foi todo gasto na tentativa de o salvar, mas não deu! O dinheiro é da Séfora e é teu. Só tens de assinar uns documentos e ficas com a tua parte.
- Mas eu não tenho direito a nada, eu...
Posteriormente, lembrou-se de algo...
- Sim, Samilla! Ainda és uma mulher casada. O Pablito nunca te esqueceu! Na verdade, esteve sempre à espera que voltasses.
- Apesar de tudo, ele amava-me!
- Muito... tanto que também era difícil para mim partilhar o amor do meu filho contigo!
- Certamente em breve, ele estará à sua espera!
- Creio que sim! E tu, apesar de já não seres nova, ainda podes ser feliz...
- Nunca mais tive ninguém, após o "Pablito". Minto, tive um ou outro namorado, mas... nunca consegui levar as relações até ao fim!
- Houve alguém que também nunca te esqueceu!
- Quem? Só se for...
- O Gabriel! Depois que te foste embora, ele e o Pablo saíram muitas vezes, jantavam juntos e nas noites que passavam no bar, mais para o fim aqui em casa, recordavam-te sem se cansar!
- E porque não me procuraram?
- Nenhum deles quis interromper o teu percurso e tinham medo que sofresses mais! Até que, antes de morrer, o Pablito, pediu ao Gabriel que te procurassemos! Tudo financiado por ele, assim o fizemos! Só agora conseguimos localizar-te, mas estás aqui! Parte e leva o Gabriel contigo!
- Eu nunca amei o Gabriel, Dona Rosana!
- Acho que agora também não tens grande tempo para encontrares alguém melhor... Acho que tudo o que vos faltou foi tempo e alguém fora do vosso caminho... Agora, se não te importares, dá-me água, preciso de descansar! Lês-me a bíblia?
- Claro que sim...
Posteriormente, agarrado às mãos de Samilla, Rosana partiu!
Só Gabriel e Séfora estavam presentes no seu funeral.
Naquele mesmo dia, com Gabriel foi ao café onde um dia foram felizes!
- Queres ir comigo para Portugal? Ajudas-me na minha clinica dentária...
Gabriel ficou surpreso com a resposta, mas não ousou responder negativamente.
- Claro que sim! A Venezuela já não oferece nenhum futuro a ninguém...
- Ficas em minha casa...só até não teres onde ficar.
Posteriormente, as gargalhadas soltaram-se naquela mesa.
- Agora tenho de te fazer a pergunta mais difícil. E o Juan? Ainda não tive coragem de perguntar por ele...
- O Juan está nos Estados Unidos, com a mulher e os dois filhos. Ainda não tive coragem de lhe ligar para lhe contar da morte da Rosana. Sabes que eles...
- Eles eram muito ligados, ela foi a mãe que ele nunca teve!
- Enganas-te, Samilla! Por que achas que o Juan foi para os Estados Unidos estudar engenharia e por lá ficou? Para não ter o mesmo destino do pai. Depois que te foste embora chorava todas as noites a chamar por ti, só o "Pablito" o acalmava. Nunca te procurou pois não lhe permitiram. Exceto depois de se tornar adulto, eu e ele procuramos-te em segredo, mas nunca conseguimos encontrar-te! Chegou a hora dele saber que te encontramos...
- Posso falar com ele?
- Farei agora a chamada que ele espera há tanto tempo...
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