OBRIGADO, CAPITÃO GANCHO!
O ano é 1989...
Wendy tinha quase 80 anos!
Para trás ficaram as aventuras com Peter, mas não só...
A sua filha, Jane, que, entretanto, na guerra, também tinha viajado até ao "Nunca" com Peter Pan crescera! Todas as memórias, incluindo com o seu amigo de infância, Jane procurava passar para a mãe!
Aquela menina, outrora revoltada e resmungona, não havia tido filhos. Todas as peripécias vividas em menina com o rapaz que não crescia e a sua fada Sininho, permitiram-lhe, apesar de tudo, conservar em si o seu coração de criança.
Esse coração foi essencial para cuidar de Wendy, cuja mente se apagara, mas o coração, apesar de adormecido, se ia conservando, muito graças à sua filha!
Naquele dia, 9 de Novembro, o ecrã da televisão era a expressão do sonho, um sonho autêntico de tantos, o tipo de sonho com que Wendy e Jane foram procurando preencher as suas já longas vidas!
Em Berlim, a queda do muro, era a abertura para um novo mundo, a fiel esperança de muitos, como o marido de Wendy, que outrora lutaram por um planeta mais justo.
A população da Alemanha Oriental estava cada vez mais insatisfeita, pois o país enfrentava uma grande crise económica que foi assolando a década de 80, insatisfação que era amplificada pela repressão e a censura do governo.
Milhares de pessoas decidiram assim se reunir e, finalmente, derrubar o muro, após o anúncio, pouco rigoroso, do porta voz do governo da RDA de que o país abriria as suas fronteiras.
Voltando a Londres e a Jane... no meio das mudanças do mundo, o que tinha sido feito de Peter Pan?
Naquela noite, Jane deu de jantar a Wendy que adormecera e ela própria foi-se deitar... Por entre o céu estrelado, a lua ia permanecendo cheia, os vidros da casa estremeceram. Uma das janelas se abriu sob uma forte rajada de vento!
Wendy acordou sobressaltada... como Jane não teria ouvido aquele estrondo? Ao pé de si, um homem barbudo, de cabelo e barba grisalhos, presumivelmente maneta e um sorriso "estilo Maquiavel" questionou-lhe:
- Olá Wendy, lembras-te de mim?
- Ca...Ca... capitão Gancho!?!
- Então lembras-te... consegues viajar até às tuas memórias mais profundas...
Wendy não estava a entender as palavras do vilão que no passado procurou sabotar-lhe, tal como à sua filha Jane... ele sim... procurou fazer de tudo para o esquecer. Contudo, não esqueceu! À sua frente, aquele velho homem, aparentemente frágil, sem o gancho, contrastava com a figura altiva e aparentemente forte do passado.
- Pensei que já tinhas morrido várias vezes! O teu gancho? - Perguntou Wendy.
- Não sei... não me lembro! Como podes tu crer que eu havia morrido?
- Não voltaste a aparecer nesta casa durante mais de 50 anos! Não era nesta altura que o Peter me deveria salvar? Onde é que ele está?
- Wendy... não me reconheces? Ao fim de quase 7 décadas... ainda não percebeste?
Wendy olhou atentamente nos olhos do Capitão Gancho... pareciam quase ser uma mistura com outros olhos que lhe remetiam ao passado.
- Então é isso... - Pensou Wendy.
Pela primeira vez em tantos anos, Wendy viu aquele homem sorrir...
- Sempre foi, querida Wendy!
- Só as experiências dos anos nos fazem entender... e, por vezes, precisamos mesmo de nos esquecer para tirarmos conclusões...
- É verdade, querida Wendy! Agora, conta-me, como tem sido a tua vida?
- Sou a última sobrevivente da minha família. Os meus irmãos partiram... o meu filho casou-se e deu-me dois netos...
- E a Jane?
- A Jane nunca me deixou, nem a mim, nem ao pai! Diz-me uma coisa, Peter, achas que se for ao Nunca, vou reencontra-los?
Peter (Gancho) esboçou um novo sorriso...
- Oh Wendy, eu próprio já não me lembro do caminho para lá... durante anos procurei manter-me criança, lutei contra o meu "eu adulto", mas quando decidi crescer, a velhice para mim também veio num ápice!
- Ainda bem que nunca te chegaste a tornar aquele ser malévolo, ainda bem que apesar de tudo, o Capitão Gancho morreu tantas vezes... mas ainda não me disseste como perdeste a tua mão!
- Nós na vida não perdemos nada, Wendy, nada! Tudo o que vivemos, serviu para nos tornarmos mais fortes! Se olhares os acontecimentos de hoje na televisão, o que vês?
- Vejo a abertura para um novo mundo...
- Enganas-te! O mundo continuará igual! Se calhar quem por cá ficar viverá numa era de paz ilusória por alguns anos, mas depois poderá voltar tudo novamente!
Wendy soluçou, assustada!
- Não te assustes... a História é cíclica, Wendy! Lembras-te que nem na Terra do Nunca havia paz? Para dar a paz aos outros, Peter Pan estava sempre em conflito com ele próprio! E a fada Sininho... sempre com os seus ciúmes! Às vezes chagava a achar que aquilo era doentio, sabes?
- Não vieste para estragar os sonhos a tantas crianças que um dia acreditaram em ti, pois não?
- Que crianças, Wendy? Vocês cresceram... e as crianças de hoje ouvirão sempre falar das histórias de Peter Pan, interpreta-las-ão segundo um mundo de magia e fantasia...terão infâncias felizes... e, mesmo em adultas, continuarão a voar por entre as nuvens ou a lutar contra o Capitão Gancho, pois precisarão disso! O sonho e o conflito interno são essenciais para trazer de volta a criança que um dia fomos. Ressuscita-la ou conserva-la é procurar preservar a nossa essência e, aí sim, estamos prontos para procurar transformar o mundo!
- Porque não vamos procurar a Terra do Nunca? Não gostavas?
- Oh Wendy! - Inspirou Peter (Gancho) - Peter Pan ainda terá muitas oportunidades para viajar até lá! Olha quem vem lá...
-Sininho! - Gritou Wendy! - Estás igual!
- As fadas não envelhecem! - Exclamou Peter (Gancho). Agora temos de ir!
- Onde? - Questionou Wendy. Não me levam convosco?
- Há uma pessoa que (ainda) está à tua espera no mundo real, Wendy! - Disse Peter (Gancho) enquanto subia ao parapeito da janela.
- Onde vais, Peter?
- Wendy, onde estarei, sabes que olharei sempre por ti! Em breve virei buscar-te, mas essa hora ainda não chegou...
- E levas-me ao Nunca?
- Quem sabe!
Peter (Gancho) partiu, sem se tornar novamente o menino que Wendy almejava que ele se voltasse a tornar. Já não era uma criança, como Wendy e Jane um dia foram. A conversa entretanto pareceu rápida, mas o certo é que entretanto amanheceu. Se calhou viajou até à Terra do Nunca e não soube. Pelo menos, teve a oportunidade, de, por momentos voltar a si e ser ela própria! Só desejava agora não ter tempo para se esquecer do que vivera naquela noite de modo a puder contar a Jane.
- Alguém madrigou hoje! - Brincou Jane! - Bom dia, Dona Wendy!
- Bom dia, Jane!
Ouvir o seu nome da boca de sua mãe, levou Jane a deitar uma lágrima!
- Mãe, és tu? Como voltaste a ti?
- Peter Pan! - Exclamou Wendy. - Queres ouvir, antes que me esqueça?
Jane consentiu, sorridente e visivelmente feliz...
Algumas horas depois, Wendy partiu... Permanecerá a eterna dúvida se terá voltado ao Nunca.
Na noite seguinte, agarrada ao parapeito da janela, enquanto chorava, olhando as estrelas, sentindo uma leve brisa, Jane agradeceu:
- Nunca pensei dizer isto, mas... Obrigado Capitão Gancho!
Ciente que todos teremos um "capitão" lá em cima a olhar por nós! E que todos somos Peter Pan!
Independentemente das voltas que o mundo dê!
Atualmente, Jane ainda está viva. Vive num lar de idosos em Inglaterra. Até hoje, como a sua mãe, espera regressar ao Nunca. Por entre tantos "meninos", muitos deles perdidos de suas famílias, a vontade de sonhar permanece firme!
R.A.O
03/04/2025

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