ERAMOS NÓS
O ano era 1955...
Éramos nós...
Naquele banco de jardim!
Namorávamos, "escondidos", dos teus pais!
Até que eles descobriram...
E aquele banco virou passado!
Ou não...
Casamos, passados 8 meses tivemos o nosso primeiro filho...
Dois anos depois, o segundo...
Sei o quanto passaste para os criar...
Estava sempre fora de casa para garantir o sustento!
Mesmo assim, sei o quanto receaste que te deixasse...
O que sentiste quando descobriste que tinha um caso...
E, mesmo assim, os momentos vividos naquele banco de jardim prevaleceram!
Continuaste a dormir a meu lado, preocupada se me alimentava bem e a esbanjar o sorriso mais bonito que alguma vez vi!
Mesmo quando te respondia torto...
Ou reclamava por dares mais atenção aos miúdos que a mim...
Ou porque chegava a casa e, por algum motivo de força maior, ainda não tinhas a comida preparada...
Ou falavas com algum rapaz e eu tinha uma crise de ciúmes!
Ou fingias dormir quando tantas vezes chegava a casa de madrugada depois de uma noite de copos, receosa que as crianças acordassem e eu te pudesse chatear...
Sei o quanto suprimias as lágrimas... sobretudo para conservar, não tanto na matéria, mas na substância, aquele banco de jardim...
Mesmo assim, nunca me deixaste...
Nem em 1955, nem em 1961, quando a guerra rebentou e tive de partir para o Ultramar...
Nem até à semana passada, quando o teu coração sucumbiu e vieste, finalmente, ter comigo!
Mesmo sabendo que morri enquanto fugia, fora do campo de batalha, nunca me deixaste! E permaneceste comigo por mais de 60 anos!
Continuaste a ir lá, ao nosso banco de jardim, no curto período que vivi, esqueci-me muito mais dele do que tu.
Agora, nenhum de nós lá está na realidade concreta, mas, é como se lá permanecessemos!
E que verbo tão bem soubeste conjugar num tempo que é como se não alterasse...
Como se o ano continuasse a ser 1955...
Aqui, neste banco de jardim, ainda é, porque tu nunca te permitiste esquecer!
R.A.O
18/05/2025
(Factos fictícios)

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