Predestinação


Não acredito no destino, pelo menos na sua concepção habitual e generalizada.

Prefiro crer que estamos predestinados para grandes fins desde, até e além da eternidade.

Creio que Deus tem um sonho. Um sonho para cada um de nós, ele é o Pai celestial, o mestre, o agricultor divino, a natureza criadora e invisível.

Contudo, neste mundo que ele criou, existirão outros tantos agentes a quem ele deu liberdade de ação,  que na Filosofia damos o nome de livre arbítrio.

Por entre este sistema, temos uma mãe, a Mãe Terra, a natureza visível, generosa, bondosa, mas ao mesmo tempo dominadora e austera, que por momentos contrasta com a paciência e apaziguamento do Pai que, com o tempo, se foi moldando e, ele próprio, se abrindo cada vez mais para o amor.

O dilúvio que, biblicamente, está presente na arca de Noé, mostra-nos que nem sempre foi assim, que o Pai, sendo perfeito, procura não se distanciar assim tanto de nós. Todo o processo de evolução do seu projeto demonstra-nos que Deus soube se adaptar sempre e cada vez mais com o avançar do tempo. A lei de Talião deu lugar à resposta pelo amor e pelo perdão, o que não sobressai na energia, mesmo assim magnânima, da natureza visível, mas tantas vezes revoltada e de resposta simétrica ou mesmo assimétrica, destrutiva através da catástrofe, natural ou por meio de doenças, ela própria doente...

Também temos o Homem, o verdadeiro causador de todo o mal, cujo livre arbítrio dado pelo Pai foi usado ao contrário, por entre a escolha de um caminho contrário aos desígnios de Deus. Este Homem sem a mesma força destrutiva da mãe Terra, que a colocou em conflito com o Pai e, salvo exceções individuais, maldoso, verdadeiramente vingativo, sem escrúpulos, possuidor da maior das inteligências, usando-a na antítese do projeto de Deus para a humanidade e individual.

Por último, o indivíduo, cada um de nós, com um projeto pré-definido, exposto a um conjunto de fatores e elementos, emoções, sentimentos, acontecimentos, ações, que permitirão a sua concretização plena, pequenos desvios temporais e comportamentais ou a sua quase completa anulação.

Não podemos assim fazer desta predestinação um dado adquirido, tão pouco embarcar em ilusões permanentes que os outros têm para nós. Devemos amar o nosso próximo na medida do amor do Pai, mas com capacidade de resposta para os seus atos e comportamentos, seguindo o seu exemplo, mas deixando-o exposto a todos os fatores que referi. 

Uma missão difícil, mas necessária. Afinal, só no amor somos felizes, mas, humanamente, sendo capazes de nos defender, tal e qual Moisés quando matou um guarda egípcio, nunca perdendo o seu coração puro, sendo o escolhido por Deus para libertar o seu povo, seguindo incansavelmente o seu projeto na busca pela predestinação. Ou o próprio Jesus, que criticava os malfeitores, que recorreu à violência para destruir o comércio que faziam junto ao templo, na pura propaganda, usando o Pai como recurso. Contudo, na sua personalidade diferente e aos olhos dos comuns dos mortais, difícil, não deixou de ser o Salvador, para os crentes, o filho de Deus, o próprio Deus, a reencarnação plena do que o Pai se tornou, cada vez mais misericordioso e bondoso.

Desta forma, a nossa predestinação não é garantida, devemos busca-la permanentemente e quotidianamente, sabendo que as criaturas contrárias ao projeto de Deus estão sempre à espreita, muitas vezes disfarçados dos mais puros dos samaritanos, enquanto defendem os seus interesses pessoais. Isso não é desculpa para nos desviar do caminho nem a autodefesa se transformar em ódio ou rancor, pelo contrário! O combate também se faz de esperança que um dia esta não será necessária e os hereges e apóstatas irão também eles se levantar da ordem escrava ou do caos permanente em que se encontram.

Abandonar a lei de Talião para procurar as suas respostas no amor, no verdadeiro e genuíno serviço ao próximo, com recurso à mente (própria) e ao coração!

Deste modo, a predestinação divina está associada à liberdade de escolha e talvez o destino seja o fim da linha e não o princípio...


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