Carta de uma mãe e de uma filha enlutada...

 


Querida mãe, 


Podia eu, no silêncio das horas, olhar para as minhas fotografias de menina e partilhar contigo a saudade que sinto! 


Contudo, prefiro olhar para as estrelas, na infinitude do céu, consciente na finitude da vida, na certeza absoluta que um dia nos iremos reencontrar no encontro perene...


Sinto saudades minha mãe, mas tenho sobretudo vontade...


Vontade de te abraçar...

Vontade de te beijar...

Vontade de te acariciar...


Lembras-te, naqueles últimos dias, já tu estavas muito doente e eu e o pai fomos a tua companhia? 


Lembras-te, quando nova, levaste os meus irmãos pelo braço ao altar?


Ou no dia do meu casamento me ofereceste aquele anel que era da avó e me pediste que desse à minha filha no dia em que se casasse? 


Lembras-te quando, na pureza de uma criança, ainda te chamava mamã e plantavamos flores no jardim? 


E quando íamos juntas à padaria comprar pão e à mercearia comprar mantimentos, bebiamos lá um café instantâneo e acontecimentos tão simples preenchiam um vazio? 


Quando o pai dizia que te queria deixar bem e que cuidassemos de ti, longe de saber que na última hora o pedido foi teu... Para que cuidassemos dele! 


Mãe, hoje resta apenas um vazio, mas também um certo contentamento, na certeza que o que vivemos não foi em vão...


Houve contudo um momento que me lembro particularmente, o dia em que me disseste que o teu maior desgosto foi eu não ter a possibilidade de passar o testemunho daquele anel à tua neta...


Querida filha, 


Com certeza estarás a ler as palavras que escrevi para a avó...


Imagino como terá sido o vosso reencontro. Os portões do céu a abrirem-se e tu a correres para ela...


Tinhas apenas 24 anos, a tua alma de certeza voltou a ser a de uma criança. 


Não consigo imaginar se estarás tu nos braços da avó ou ela nos teus...


Apenas sei que de algum modo, aí no céu e aqui na Terra, estarei algures feliz no vosso meio. 


O meu corpo está aqui, mas o meu coração está aí...


No outro dia sonhei contigo, pediste-me para continuar a lutar. 


É o meu primeiro dia da mãe sem a minha mãe... 


Há 5 anos celebro-o sem ti... 


Sinto que perdi a maior parte de mim no dia em que te foste embora... 


Mas vou continuar a lutar. Por mim, mas sobretudo por vocês. Pelo mano. Seria tão bonito ver os teus olhos quando o teu sobrinho nasceu...


A avó dizia que ele é muito parecido contigo... 


Os dela ainda os vi, emocionada pelo nascimento do menino...


E os teus? 

Como estão os teus olhos? 


Esperem por mim, pelo avô e pelo pai aí... 


O genro mamã, que tu aprendeste a amar e a quem te declaraste naquele dia que nos uniu na dor da perda... 


"Foste o melhor pai que eu conheci e és o filho que nunca tive... Nenhum dos meus rapazes se preocupou comigo como tu..."


Espera por mim mamã... O teu genro manda-te beijinhos, o papá ainda está a reaprender a viver sem ti, cada vez mais debilitado, mas está em paz... 


Às vezes acho que na maioria do tempo ele pensa que ainda estás fisicamente perto dele. Chama-me pelo teu nome! 


Nos teus braços para sempre mamã Esperança...

Nos meus braços para sempre minha filha Vitória...


Autor: Rui Oliveira 

(Texto fictício) 


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