"Eu sou aquele que sou"


Deus disse a Moisés: "Eu sou aquele que sou", no momento em que pastava as ovelhas de Jetro, seu sogro e avistou a "sarça ardente", perguntando a tal divindade quem ele era!

Esta expressão é magnânima! Uma resposta encantadora: "Eu sou aquele que sou"! O que eu sou ou posso ser, a não ser aquele que sou, o que já sou, o que serei? Quem é Deus senão Deus? Quem é o Homem senão o Homem? O indivíduo senão o indivíduo? 

Quem sou eu senão simplesmente eu? E nada mais... 

Recentemente, a minha irmã disse-me que herdei as piores características do lado paterno e materno! Que sou mesquinho, mas ao mesmo tempo direto e, até certo ponto, violento nas palavras...

Não me pode deixar de sentir orgulhoso com tal "elogio". Afinal... "Eu sou aquele que sou" e não devo justificação a ninguém, a não ser a Deus! Sou mesquinho relativamente a tudo o que acenta no aperfeiçoamento da inteligência, da educação, dos comportamentos e da dignidade... 

Quanto às palavras, estas são e serão sempre a minha maior arma, tal e qual Antero de Quental, que tinha, na sua corrente "estranhamente" realista uma ideia social e filosófica a implementar, procurando que a poesia fosse o mote para tal empreendimento. 

Quando avistou o "Palácio de Ventura", apercebera-se que o seu ideal de felicidade podia ser avistado. Contudo, o interior de tão majestoso castelo, por que batia desesperado, nada mais era do que uma ilusão tremenda... 

Por entre o seu desgosto, defendeu até à morte a sua "tese", na "antítese" que se apoderava do seu coração. À medida que perdia a esperança, mantinha a fé quase impossível que a sua ideia podia ser implementada por outros, não tanto segundo um método pacífico, mas recorrendo à desordem ou à violência! 

O desespero de Antero falava, não era ele, por entre a solidão, a descrença, a dor ou o vazio que culminaram no seu suicídio, perante a falta do "sonho" que sempre comandara a sua vida...

E eis-me aqui, numa ponte, por entre a água, a contemplar a paisagem no desejo pleno da vida, na crença intocável em Deus e no universo, nos Deuses que se dizem tal e gregos, criaturas míticas na suposição, mas reais na verdade oculta do nosso coração. Um ser aberto e confiante que acredita no amor, exigente, mas paciente, que acredita e espera firmemente por um lugar melhor, mas que está dependente de seres que não são (ou já não são) deste mundo! 

Até lá, procurarei mudar o "meu mundo", aquele que posso mudar, com mesquinhez como creio que possa ser, com "violência verbal" se tal significar o confronto saudável de ideias e pensamentos, no sentimento de "nojo", tal e qual Cesário por entre o nevoeiro, a noite, a neblina da "cidade" onde vivo, tal é a poluição e a sombra, o "céu londrino" da ignorância, do individualismo e da pequenez...

O meu tempo não chegou, tão pouco quero que chegue. Só quero morrer, sendo "aquele que sou"! O meu maior receio é que o "nojo" vire mera manipulação. Aí morrerei para sempre ainda vida. E não serei mais eu, como agora, em que...

"Eu sou aquele que sou", movido pelos "ares" do campo, um Deus milagroso e as "Avé Marias" da minha vida...


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