Caminho de peregrino





Uma das experiências mais simples, mas marcantes da minha vida foi um percurso percorrido no miradouro do santuário de Nossa Senhora da Lapa, freguesia de Soutelo, Vieira do Minho. Decorria o Domingo, 16 de Maio de 2021...

Antes de vos explicar o que senti, queria partilhar convosco um pouco de História sobre local tão oculto, que de fato esconde algo inexplicável, tal é a magia da fé face às certezas! 

Conta a história que no ano de 1805, Nossa Senhora da Lapa surgiu diante de uma pequena pastorinha, Joana. Sabendo do ocorrido, o pai da criança deslocou-se ao local a fim de constatar o acontecimento.

Quando a sua filha apontou para o local da aparição, lá estava Nossa Senhora novamente. Rapidamente a notícia da aparição se espalhou pelas localidades mais próximas, iniciando as romarias no primeiro dia do mês de Junho.

Em 10 de Junho de 1805 reuniram-se mais de quinhentas pessoas neste local. Dado o enorme fluxo de peregrinos, o abade Rodrigues Ramos ordenou a construção de um altar por baixo do bloco granítico onde a imagem de Nossa Senhora tinha surgido.

Ordenou também que a área em redor fosse convenientemente preparada para receber o maior fluxo de peregrinos possível.

É um Santuário dedicado a Nossa Senhora da Lapa, com peregrinação no 2º domingo de Julho. 

O Miradouro localiza-se mesmo ao lado da Igreja. O acesso faz-se por escadas em madeira e também pelas rochas, mais ou menos a meio do percurso existe uma passagem por entre duas grandes pedras que se tem de atravessar para seguir o caminho até ao topo.

Enquanto percorria tão agradável caminho, senti que passava da dimensão terrena para outra totalmente diferente, celestial ou talvez não.



Quando comecei a subir o miradouro, sentia uma sensação estranha de angústia, parti com as distrações, problemas e preocupações terrenas a sentirem-se tremendamente no meu peito, contudo sentindo que, à medida que me aproximava do cume, tinha o mundo aos meus pés, através de uma paisagem tão bela, onde, pelo meio, visionei uma cruz solitária, impossível de lá chegar. Ciente porém que para se chegar a Cristo não é necessário o tato. A mística dos sentidos se faz diferente na caminhada Cristã. Almejava, contudo tocá-la...



Imaginar, em pleno Domingo da ascensão, o sofrimento de Cristo, enquanto eu me movia em semblante preocupado e distraído, cansado de uma vida carregada de trabalhos e projetos que pouco tempo deixam para mim próprio, causaram-me uma certa sensação de abandono, incluindo do meu próprio eu.





Senti-me então, no seu aspeto central, atraído pelas duas grandes pedras que se encaixavam, formando uma espécie de gruta por baixo delas, que teria de passar para chegar ao pico da montanha, sem GPS ou sem saber para onde ia exatamente. Foi a partir dali que tudo começou a mudar, embora não totalmente. Continuei a minha subida e, foi como se o céu me alcançasse. 



Após subir as escadas da vida e as pedras que foram passando no caminho, senti a minha casa novamente alicerçada sob aquelas mesmas rochas...



 ... quando cheguei à cruz que terminava o itinerário. Tinha chegado a Cristo, olhando pelos quatro horizontes à minha volta, enquanto contemplava a paisagem com outros olhos e sentia a brisa suave do vento a bater-me na cara, ouvindo apenas o silêncio do momento, num autêntico momento de solidão, tema debatido à hora de almoço, que eu dizia ser um sentimento infeliz. 



O caminho, o "céu", demonstrou-me o contrário. A solidão pode ser um momento feliz quando nos sentimos mais perto dele. Certo é que quando pisei novamente o lugar cá em baixo, muito mais longe do lugar por todos imaginado, senti-o muito mais. Muito mais... A vida fazia agora ainda mais sentido, tal a sensação de libertação que sentia, uma sensação inexplicável. 



Desci do céu, aquele miradouro cujo caminho é tão curativo, a meditar, com várias inspirações e expirações perante olhares tão belos, únicos, irrepetíveis, que me transmitiram agora uma sensação de paz e me mostravam, uma vez mais, como o mundo é belo, apesar de tantos flagelos vividos na nossa casa comum, um pouco por toda a parte...




No Domingo da ascensão, também eu ascendi ao céu, muito embora no sentido figurativo. Subi preso aos sentimentos terrenos e desci, soltando-os, libertando-os no vazio que constituiu um autêntico milagre, um milagre interior. Um vazio interno que virou externo, pois o céu que é o meu coração ficou preenchido. 



Elevei-me e retornei numa autêntica sensação de transformação e tranquilidade. Afinal, tudo vai correr bem e as peças fundamentais serão colocadas no devido lugar...



Obrigado a Deus, ao universo, ao divino e aos Homens bons por me mostrarem o caminho...


Ficará para sempre a promessa que nunca desistirei, incluindo quando subir ainda mais as escadas rumo ao lugar celestial...





Rui Oliveira 

16/05/2021


Comentários

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Que bela experiência! Somos Almas em conexão com o Divino! Bênçãos e bênçãos na tua vida terrena!

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