Que esperança damos ao mundo de hoje?
Falar de esperança é muito mais difícil do que falar de fé. Das 3 virtudes essenciais é a mais difícil de escrutinar. Talvez por isso, não seja, na minha ótica uma virtude suficientemente estudada, comentada, divulgada ou evangelizada por nós cristãos, que tanto falamos das outras, até temos a celebração da profissão de fé, mas, talvez por desconhecimento ou medo do desconhecido, ou falta dela, metemos a esperança na gaveta ou bem lá no fundo do nosso coração numa autêntica caixa de pandora. E que repercussão isso tem na nossa vida e na resolução dos nossos próprios problemas, por muito boas pessoas que sejamos e muita fé que julgamos ter!
À igreja falta esperança, vemos muitos cristãos sisudos,
tristes, como se o objeto da sua fé viesse ter com eles como um passe de mágica,
como se a “espera”, a esperança por algo ou alguém fosse uma espera ou uma
esperança passiva, como se bastasse orar ou rezar para que os desígnios de Deus
e os nossos próprios desígnios e objetivos se cumpram! A espera, a esperança
cristã tem de ser ativa, não suficientemente, mas extremamente e
permanentemente ativa.
Na minha infância, costumava ouvir uma história que me toca
até hoje e que é assim:
“Havia quatro velas que se consumiam num quarto escuro.
Elas brilhavam tão suavemente que era quase
possível ouvi-las. A primeira vela dizia: "Eu sou a Paz, mas hoje em dia
ninguém quer manter-me". Então, a
chama da Paz lentamente diminuiu e apagou-se completamente. A segunda vela
dizia: "Eu sou a Fé, mas hoje em dia as pessoas pensam que não precisam mais
de mim". Então, a chama da fé lentamente diminuiu e apagou-se
completamente.
A terceira vela disse: "Eu sou Amor, e não tenho forças para ficar acesa
por mais tempo, as pessoas colocam-me de lado e não entendem a minha
importância, às vezes até se esquecem de amar aqueles que estão mais
próximos delas". E como ela não podia mais esperar, a chama do amor
foi completamente extinta.
De repente, uma criança entrou na sala e viu as três velas apagadas. Ela
perguntou em voz baixa: "Por que as velas não estão acesas? Elas deveriam
ficar sempre acesas." Então, a quarta e última vela falava gentilmente com
a criança: "Não tenhas medo, porque eu sou a Esperança e, enquanto ainda
estiver acesa, podemos reacender as outras velas". Com olhos brilhantes, o
menino pegou na vela da Esperança, acendeu as outras três velas e disse:
"Jamais permitirei que a Esperança se apague".
No meu percurso profissional e eclesiástico fui-me deparando
com os mais diversos obstáculos. Vivemos numa sociedade consumista e totalmente
descristianizada, excessivamente racionalista e até “iluminista”. Os valores e
as virtudes cristãs e espirituais num todo, vão e continuam a perder terreno
neste meio ocidental em que habitamos, surgindo todos os dias novos “seres
iluminados” que se focam apenas nos aspetos mundanos, como se a solução para os
problemas do mundo se resumissem ao prazer e ao dinheiro e como se a verdadeira
felicidade se resuma apenas a “pequenas esperanças”: Ter uma boa casa, um bom
carro, uma conta bancária recheada ou como se na solidariedade bastasse simples
esmolas que nos deixam de consciência tranquila.
Cada vez mais eu, enquanto cidadão e Cristão, tenho o
direito e o dever, pois somos livres e não devemos ser obrigados a nada, de alimentar a minha esperança, por mim e pelos outros. No entanto, a maioria de
nós não está preparada para levar a cabo tal empreendimento. Alguns Cristãos não
passam de Cristãos descafeinados, simples rotineiros. Outros porque apesar de
parecerem viver de forma ativa o encontro com Cristo e tê-lo como meta, são
cristãos sem esperança, seduzidos, tal e qual os beatos e os fariseus no tempo
de Jesus Cristo. Estão tão preocupados com os seus próprios problemas e os
problemas do mundo que acabam, mesmo sem querer, por pôr Cristo em segundo
plano.
Cristo nunca nos disse que a vida não teria os seus
obstáculos, que estaríamos livres de doenças, pandemias, guerras, catástrofes
ou até mesmo do flagelo da fome ou que a morte não seria uma constante à nossa
volta! O que alimenta a esperança não é evitar os problemas na nossa vida e nas
restantes vidas, mas o modo como procuramos ultrapassa-los e como ajudamos a
permitir que o meu irmão ou irmã a ultrapasse, numa autêntica caridade
fraterna. Deste modo, tornamo-nos seres humanos e Cristãos mais fortes, pois
temos viva a chama da esperança, que não é mais importante que as outras, mas
ajuda a mantê-las acesas ou que se voltem a acender quando tudo parece
desmoronar.
Senão vejamos o salmo: “Meu Deus, meu Deus, porque me
abandonaste?” que tantos interpretam como sendo palavras tristes, sendo o seu
contrário. No mínimo, o sofrimento humano e aflição de Cristo num grito de libertação
e desabafo, sem nunca deixar de ter esperança no Pai. No máximo, essa mesma
esperança no Pai. Aquele momento da morte seria apenas um momento, pois a
seguir viria a ressurreição, o renascimento e a esperança!
Por isso, um dos livros que mais gosto na bíblia é o “Livro
de Job” que nos diz:
"E terás confiança, porque haverá esperança; olharás
em volta e repousarás seguro."
É assim que me sinto neste momento. Procuro não fazer da
minha vida uma profecia constante, a própria bíblia do génesis ao apocalipse
convida-nos a viver o momento presente, o “aqui e agora”, pois é o espaço onde
estamos, onde vivemos e, por isso mesmo, é nisso mesmo que nos temos de focar,
na verdade, na bondade e na justiça, sem procurar uma certeza constante de qual
será o nosso destino. Afinal, a fé não se move de certezas e a esperança
significa, essencialmente, “esperar”. Em última instância pelo encontro que se
dará, pelo próximo encontro com o nosso salvador e redentor Jesus Cristo.
Necessitamos de viver a esperança, celebrar a esperança, mas
também sentir esperança nos nossos corações. Como Cristãos, aprender a
“esperar”. É o mais difícil de tantas tarefas que Cristo nos apresenta: Saber
“esperar”, mas temos mesmo de o fazer enquanto tivermos duas mãos para moldar,
dois pés e duas pernas para caminhar, um coração para amar, uma boca para
comunicar, dois ouvidos para escutar, dois olhos para visualizar e observar e
um cérebro para pensar.
Porque a esperança é um dom dado por Deus, é a força do
espirito santo em andamento, a trabalhar no nosso coração e que precisamos de
transparecer cá para fora, partilhando-a. Só assim alimentamos a nossa fé, a
nossa caridade e ajudamos a resolver os grandes problemas da vida e do mundo.
Não deixemos que a chama da esperança se apague! Sejamos
agentes de esperança que implica mudança, não nos prendendo ao passado, mas
vivendo o presente e agradecendo todos os dias o que Deus nos dá. Assim o faço
e procuro dar e receber, sendo ator de esperança nos diferentes lugares na
minha vida: No trabalho, na igreja, nos grupos de meditação em que participo,
na família, nos amigos… E, juntos, construímos uma casa com as pedras que vamos
encontrando pelo caminho, procurando assim me reinventar, não fazendo da minha
vida uma mera existência, procurando vencer todos os dias a pandemia do medo, da
ostentação ou da solidão, deixando Deus guiar a minha vida, tendo eu a
responsabilidade da sua administração num autêntico organigrama de esperança
que envolve tudo e todos.
Que esperança damos ao mundo de hoje?
É uma resposta que cabe a cada um responder. Cada um, dentro do objeto e
objetivo da sua fé e da sua esperança que é Deus, deve viver estas virtudes à
sua maneira, de forma livre, nunca deixando de ser como é e quem é, tal como
Cristo, que sempre compreendeu que poderia ser livre, se não prejudicasse a
liberdade do outro e, por conseguinte, fizesse da sua esperança uma esperança
coletiva, com todos os riscos inerentes, até a morte terrena.
Afinal, eu não posso esperar sozinho, mas não devo pedir aos
outros que esperem por mim. Não devo colocar no mundo expetativas elevadas,
isso não é esperança, mas saber, que como Moisés, temos alguém com quem caminhar
e com quem ir ter e um lugar para onde ir. Desde logo os outros, mas
essencialmente Deus nas outras pessoas. Só assim seremos felizes na alegria e
na tristeza, na saúde e na doença, até que a morte nos separe fisicamente, mas
nos una ainda mais e a Deus na alma e na força do Espírito.
O arco-íris há-de chegar e o céu não é o limite. Tenho tantas vidas para mudar, tantos corações para tocar, paradigmas para vencer e um Deus para conhecer sempre e cada vez mais…
Sigamos o conselho de São Paulo na sua carta aos romanos: “Pois
nessa esperança fomos salvos. Mas a esperança que se vê não é esperança. Quem
espera por aquilo que está a ver? Mas, se esperamos o que ainda não vemos,
aguardamo-lo pacientemente.”
“Ide por todo o mundo e proclamai o evangelho”. Cristo
é a razão da nossa esperança, ativa e plena, mas sobretudo paciente. O que
esperamos chegará, tal como aquilo que nos espera…
(Texto adaptado de um testemunho no âmbito do MCC)

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