O guardião da lua
Ambrose, "Ambrósio" como tantos lhe chamavam era um jovem tímido, muito solitário, com certos comportamentos por vezes estranhos, um aluno razoável, alguém aparentemente sem talento e com um semblante triste.
O que ninguém sabia, nem eu que o via todos os dias é que Ambrose verdadeiramente não existia, era apenas uma ilusão coletiva na pequena aldeia londrina em que habitavamos.
Habitavamos todos, menos Ambrose... O "Ambrósio" na realidade vivia na lua. Não necessariamente porque estava sempre na cabeça nela, mas porque tinha ela na cabeça!
Contam os seus pais, ainda hoje, 50 anos depois de, aos 17 anos, ter feito dele o meu melhor amigo, que a cama de Ambrose ao longo da noite estava sempre vazia. Nunca compreenderam porque e o filho nunca lhes havia dito nada! Nem a eles, nem a ninguém...
Só a mim! O amigo que anteriormente o atormentava e perseguia, pelo seu ser e aspeto estranho, levando todos os rapazes da turma comigo, fazendo da vida de Ambrose um período difícil naquela altura!
Isto até ao momento que numa noite de lua nova olhei para o céu. A lua não se via. No seu lugar vi Ambrose que me acenou:
- Se quiseres vir até mim terás de pedir à lua! - Dizia Ambrose.
Eu, inerte, fui incapaz, tão frágil era a minha fé, ficando incrédulo com tudo o que assistia. Fechei a janela e, no dia seguinte, perguntei a Ambrose o que sucedera. Ele mostrou-se desentendido e todos na escola riram-se da minha postura, do fato de ter dirigido à palavra ao mais impopular da escola, o rapaz esquecido, o elefante na sala...
Algumas noites depois, não me apercebendo, absorvido na tristeza, pedi, olhando as estrelas, não sei propriamente a quem, que tudo aquilo não passasse de um pesadelo. E eis Ambrose, agora em quarto crescente, a acenar-me novamente e a construir escadas com as nuvens.
Apercebi-me logo que seria um convite e, cada escada que subia, senti-me uma pessoa diferente, verificando que Ambrose era também diferente, como se no seu próprio mundo, os seus olhos fossem capazes de sorrir, como se Ambrose habitasse verdadeiramente na lua e a pessoa que conheci há alguns anos não passasse de um "disfarce".
Na realidade, nunca soube ao certo qual era a missão de Ambrose, o que ele era verdadeiramente. Naquela noite, ao longo de 7 segundos que mais pareceram uma eternidade, tal e qual os sonhos que duram esse tempo, mas parecem nos acompanhar a vida inteira, Ambrose levou-me até um pequeno lugar na lua, não que ela fosse muito grande, mas era um mundo transversal, apesar da sua pequena dimensão, tal e qual deveria ser o próprio mundo de Ambrose, transversal, contudo escondido.
Naquela sala, Ambrose guardava em pequenas gavetas do que me parecia ser um armário, memórias, minhas e dele, cada uma alusiva a um sentimento. Houve, contudo, três que se destacaram:
O primeiro foi a amizade. Eis que ele nos mostrou dois pequenos "guris" a brincar no pátio da escola primária. Eu que não me lembrava daquele momento, só dos que o persegui, já pré adolescentes!
O segundo foi o amor. Eis a memória de quando a professora bateu no Ambrose pois este lhe tinha roubado uma prenda que a mãe de um colega nosso lhe tinha oferecido. O tempo voltou ainda mais para trás. Ambrose tinha visto um dos rapazes da turma a roubar a prenda e a esconder na minha mochila. No momento em que ia colocar o presente no seu devido lugar,a professora apanhou-o e, insultando-o com todos os nomes por que era chamado devido à sua personalidade, bateu-lhe.
Na terceira memória, Ambrose ia ter comigo à noite, enquanto dormia na adolescência, e chorava por mim. Foi então que percebi que aquela memória representava o perdão.
Aquele momento mudou a minha vida e, a não ser de coração e pensamento, nunca mais vi Ambrose que naquela noite desaparecera para nunca mais voltar. Dizem os seus pais que o seu desejo era partir. Só eu sabia o quanto, que a missão de Ambrose não era ser alguém terreno, mas algo mais!
O meu melhor amigo, que continua a guiar as minhas emoções e os meus sentimentos, as minhas memórias, aquele que me conduziu à possibilidade de curar os outros, no corpo e na alma!
O meu guardião, que está sempre comigo, o "guardião da lua" que ainda parece querer aparecer ao longo das noites de lua nova e quarto crescente, deixando-me acompanhado pela lua cheia e só no quarto minguante!
Foi necessária a lua para Ambrose se dar a conhecer a mim, a pessoa que menos seria provável. E será necessária novamente no dia em que as escadas das nuvens estiverem acessíveis para lhe poder voltar a abraçar...
Ao guardião dos sonhos, das minhas horas e da minha vida...
Hoje, com 67 anos, conto aos meus netos esta história com os meus filhos a chamarem-me "doido varrido". Já se esqueceram porém que um dia lhes contei da existência de Ambrose.
Talvez precisem se dirigir ao guardião das mais magníficas memórias...

Que lindo texto, adorei e fez-me refletir em como as coisas que escrevemos podem ter diferentes interpretações quando lidas pelos outros. A escrita é algo tão subjetivo que nem sempre o que escrevemos desperta as sensações que esperamos e as que experienciamos ao escrever. Eu revi-me no Ambrose, sabe?
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