A Páscoa
Páscoa significa "passagem" e tem as suas raízes no momento de libertação do povo hebreu (judeu) na escravidão do Egito, que resultou na travessia pelo Mar Vermelho e consequente caminhada até Canaã na Galileia, terra que viu nascer esse povo muitos anos antes a partir da descendência do Patriarca Abraão, fundador do povo de Deus, hoje "dividido" entre Judeus e Cristãos!
Os judeus continuam a celebrar a Páscoa como se fosse a primeira, pois, como outrora, não se acreditam na divindade de Jesus e, por conseguinte, na chamada "Nova Páscoa" ou Páscoa Cristã.
A primeira Páscoa ocorreu pouco antes da libertação do povo judeu das terras do Egito, um pouco antes da chamada "décima praga" que devastou o povo egípcio e poupou o povo hebreu. Enquanto muitos egípcios pereciam, o povo judeu seguiu os conselhos de Deus e, confinados em suas casas, mataram um cordeiro, marcando com o seu sangue as portas, de modo que o "anjo da morte" não os reconhecesse. Comeram o cordeiro, juntamente com ervas amargas, vinho e pão ázimo (sem fermento), símbolo autêntico do alimento espiritual. A sua fé lhes salvou desta pandemia devastadora que consumiu o pobre povo egípcio e proporcionou a liberdade dos escravos e a passagem para uma vida nova, recheada de liberdade, com obstáculos ao longo da caminhada até à terra natal.
Os judeus, ao jantar, acompanhado de textos bíblicos relacionados com este episódio da libertação do povo de Deus, celebra a sua Páscoa, em data de acordo com os ciclos do Sol e da Lua, consumindo os mesmos produtos da ceia pioneira. Celebram, igualmente, a Primavera, com uma essência similar à Páscoa, daí a sua coincidência com esta estação. A estação do renascimento, da mudança, de uma maior beleza natural, propícia a uma nova vida!
Jesus, antes de ser o "Cristo", como judeu que era, celebrou a ceia pascal com os seus discípulos de acordo com a tradição judaica, instituindo naquela última ceia o pão e o vinho, o seu corpo e o seu sangue, derramado por nós entretanto, libertando-nos da sombra da morte e, não nos livrando dela, abriu-nos as portas do céu.
Aquele momento da morte foi sobretudo um "despertar de consciências". Até que ponto poderia ir a maldade humana? Até que ponto alguém poderia ir para defender a causa da liberdade, a sua própria verdade, tão verdadeira a partir do momento que se centrava numa espécie de "confrontação" perante a repressão de um povo do "jugo romano" sob as "armas" do amor e da justiça? Jesus Cristo foi até à morte física e, no meio da barbárie e do sofrimento, perdoou os seus malfeitores, nunca perdendo a fé e a esperança.
Eis a nova páscoa, a páscoa cristã, o cordeiro imolado da cruz! Um cordeiro diferente da Primeira Páscoa, humana, cujo corpo foi consumido, mas não a alma...
A esperança, essa, veio mais tarde, no momento da ressurreição. Numa noite, o povo se deitou triste com a morte do "mestre", outros com remorsos do que lhe fizeram. E, numa manhã, algo de transcendente, ainda hoje um mistério aos nossos olhos aconteceu, e o seu corpo desapareceu do sepulcro. A ressurreição não é um evento científico, a fé não se trabalha no domínio das certezas, mas da confiança, da espera e da revelação, sabendo de antemão que há um Deus, inclusive feito Homem que nos acompanha e nos devolve o "fulgor da vida" depois dos momentos de morte e tribulação. Um Deus que nos dá uma nova vida e nos encoraja a seguir em frente todos os dias, com especial enfoque na quaresma, triduo Pascal, Domingo de Páscoa e os posteriores 50 dias do Tempo Pascal!
Tal e qual a flor que dorme de noite e acorda de manhã renovada. Páscoa é passagem, renascimento, vida (vivacidade), esperança, amor, escolhas, liberdade e coragem, no exemplo de Cristo que nos libertou ao abrir consciências e acalentar corações e, muito antes, do povo Hebreu, ao ter coragem para se libertar do poderio egípcio e fazer jus à sua identidade individual e coletiva por intermédio de Moisés!
Páscoa é Primavera, a natureza a florir, muitas vezes depois de um Inverno rigoroso, é o "despertar das células" para o nosso lado espiritual, o "despertar de coração" para ver além dos nossos olhos, o girassol a seguir a luz do Sol em busca de energia, da luz de Deus, o sol quando se põe e (re)nasce todos os dias...




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