A urgência de viver! - Capítulo III

 



Ernesto esperava Alonso em casa.

- Disseram-me que estiveste com a filha do patrão, seu animal? - Perguntou, visivelmente transtornado o pai de Alonso. 

Alonso, sucumbido pelo medo respondeu: 

- Sim, pai, a menina pediu que a levasse até à entrada da fazenda, tinha medo que algum vinhateiro atentasse contra a sua dignidade! 

Ernesto riu-se...

- Sim, claro, até porque o patrão mandou-a estudar para fora no passado, pois ela era uma menina muito inocente! Naquela noite que saíste de casa e te viram a lançar pedras contra a janela do quarto da "menina", era para protegeres a sua dignidade também... Ou achavas que ela estava muito sozinha? 

- Papá, ...

Ernesto bebia a sua caneca de vinho, tirando de seguida a navalha do bolso, enquanto comia o pão e a chouriça que tinha em cima da mesa. Alonso olhava aquela casa suja, desarrumada e o homem de cabelo comprido e barba a 3 dias, com ar "desleixado" que tinha à sua frente, que o interrompia a cada instante... 

- Sabes que a pessoa que me contou do vosso encontro, e de outros também, estava com ela no quarto naquela noite? Claro que não o viste, ela manteve-o escondido na cama enquanto veio à janela, por isso disse que não podia estar contigo naquela noite...

Alonso ficou estupefacto com a afirmação de Ernesto, mas nem por isso deixou de reagir com dúvida: 

- Não pode ser! 

- Ai não? Então pergunta à tua Constança. Ela é tal e qual a tua mãe! Dizia que estava na vinha a trabalhar, mas quantas vezes andava enrolada com outros? As mulheres são todas iguais... Ela vai fazer como a tua mãe, vai fugir com um tipo melhor do que tu! 

- Ela não me faria isso! - Ripostou Alonso perante as insinuações do pai. Seria a sua belíssima Constança, menina doce, bem disposta e sorridente capaz de o atraiçoar?

Ernesto levantou-se do banco onde estava sentado e prosseguiu: 

- Ela não te vai fazer isso. Sabes porquê? Porque esses encontros vão acabar aqui e agora! Se eu sei que tu te encontras com ela novamente, sabes bem o que te acontece! - Avisou, mostrando o cinto ao pobre rapaz! - A tua mãe gostava de apanhar, lembras-te? Pelos vistos também gostas! - Se tiver problemas com o patrão, sabes o que te acontece? 

Visivelmente amedrontado, Alonso abana com a cabeça na negativa... 

- Mato-te! - Terminou Ernesto. 

Alonso saiu para o seu quarto, deitando-se na cama a chorar. Ernesto continuou com a sua "atividade preferida". 

No dia seguinte, o adolescente de 17 anos, reviu Constança, um pouco mais velha, que negou que o traísse. Enquanto o rapaz acreditado desaparecia nos campos, a jovem olhava para ele. Inegavelmente, Alonso era o seu verdadeiro amor. 

No entanto, teria ela maturidade para assumir um compromisso sério, além que as convenções nunca permitiriam um casamento entre si e um empregado da fazenda? O seu pai era até muito liberal, mas nunca iria tão longe nesse sentido...

Restava-lhe aproveitar cada momento com Alonso, como se fosse o último...

Na vida, cada um de nós tem dois lados...

 Quando virou para o outro lado, alguém esperava aquela menina aparentemente inocente que se preparava para desprender o cabelo (e não só) à medida que ia caminhando... 

Com quem Constança também se encontrava às escondidas, além de Alonso? Com alguns, é certo, mas nem todos são personagens destes campos, de vida e de morte, mas essencialmente de esperança que o cultivo da vinha daria no futuro melhor fruto...

Terá dado? 

Constança passou mal aquela noite, gritando por Alonso constantemente. Marigold pediu à mãe que dormisse, pois o seu som se ouvia em toda a fazenda.

Constança não estava naquela dimensão, no seu interior permanecia aquela menina de 20 anos que se apaixonou por Alonso e, juntos, viveram incríveis momentos. 

- O Alonso precisa de descansar, mamã! Tu não estás a permitir que isso aconteça... 

Constança vira uma sombra a passar no corredor escuro, visível pela porta aberta do seu quarto. 

- Quem é? - Perguntou a nonagenária. 

- Deve ser uma das empregadas ou o Senhor Almeida, o mordomo! Agora descansa... - Concluiu Marigold enquanto tocava com a sua mão, já com várias rugas, na mão da sua mãe, recheada de História.

Quando Marigold regressou ao seu descanso noturno, Constança pegou, uma vez mais no espelho, e, diante dele viu a face, os olhos, a imagem... De uma menina! Uma menina que não sabia bem quem era... A seu lado, o olhar brilhante e reluzente de um jovem rapaz que já só existia nos seus sonhos... 

"Alonso!" - Terminou, antes de dar um leve suspiro e sopro de vida! 


(Continua...)

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