A urgência de viver! Capítulo I


Constança é o seu nome.
Outrora, uma menina sonhadora da aldeia do Xisto, algures num país distante. 
Filha do mais nobre fazendeiro da região, tinha por Alonso uma paixão fulgurante. 
Eis o seu amado, filho do campo. Rapaz humilde, um tanto ao quanto ingénuo que viu na doce, mas perspicaz Constança a oportunidade de construir a sua felicidade.
O dinheiro da jovem "princesa do Xisto" a si não lhe interessava, mas sim os seus olhos castanhos, o seu cabelo, cor do ouro e os seus lábios vermelhos de paixão. 
Assim era Constança, uma jovem de 20 anos que já havia conhecido o mundo, estudado, namorado, se divertido. Cada momento da vida de Constança era uma eternidade na vida de trabalho do jovem Alonso que, na realidade, não se sentia feliz, mas só. 
O pai, um trabalhador da fazenda que fazia do cálice de vinho uma saída para a sua vida desoladora, para esquecer o abandono do amor da sua atribulada existência e imaginar que o filho que a amada esposa lhe deixara nos braços não existia. Filho... Que filho? Seria realmente dele aquele rapaz "fechado" no seu sentir, cujas armas para se defender não estavam munidas de balas e a sua âncora nem sequer existia. 
Para Ernesto, Alonso não passava de um estorvo que a vida, ou melhor, Cristina, lhe dera! Ai a Cristina, aquele olhar vibrante, a pele morena, o cabelo loiro e altura que lhe permitia chegar (quase) ao céu, divinal era a sua beleza. Onde ela estaria após desaparecer naquela noite, apenas com o vestido que tinha no corpo? 
"Ali Babá", como era conhecido o zelador e responsável pela fazenda do Senhor Tomás de Noronha, homem muito rico, descendente da antiga Nobreza dos Távora e de Aveiro, percorria todos os dias os campos com o seu chicote. Homem alto, forte, ostentava autoridade, mas era daqueles olhos vis que Alonso se escondia. Sabia que "Ali" tinha autorização do seu pai para lhe dar os corretivos "necessários". Se não os levasse no campo, pois fugia por aqueles caminhos de vida (e de morte), o cinto lhe esperava quando chegasse a casa. 
Só ela dava a Alonso a esperança de um dia vir a ser feliz. O olhar de Constança irradiava felicidade. Isso mesmo! Irradiava...
Aquela Constança jovem, sonhadora, lutadora, persuasiva, corajosa e destemida de 1945 constrastava com a velha Constança, hoje sentada no seu cadeirão, à entrada da casa da antiga fazenda, enquanto olha os campos, outrora cheios de vida e que lhe transportam para o seu grande amor, do mesmo modo que a conduziram e a tantos para um destino difícil. Se a sua vida terá sido feliz ou triste, só a velha Constança poderá dizer, se souber.
Uma coisa é certa. A jovem Constança parecia cada vez mais distante do nosso tempo, mas mais próxima e presente no tempo da senhora que diante do espelho via apenas a imagem de uma menina...
Já o jovem Alonso estava muito próximo de si, distante do momento atual. A saudade do seu amor impera...
A velha senhora que diante do espelho via apenas a imagem de uma menina...

(Continua...) 

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